quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Viena é Duca!

Viena
(a cidade, não o restaurante)

A caminhar ao lado do Danúbio, com as faces laceradas por um vento álgido, senti saudades da minha terra e não pude deixar de lembrar com um suspiro a bela Belford Roxo cortada pelo Sarapuí!...
Passei um Natal que faria a alegria de qualquer papa-hóstia: numa boate. Antes de entrar, conversava com o leão-de-chácara, ex-soldado do exército alemão, diante do qual não me senti, digamos, apequenado ou mesmo um pigmeu, mas sim uma criança com problemas de crescimento confrontada com um jogador de basquete. Mal abri o bocão, o gigante já lançou-me a maldita pergunta de se eu viria da França. A explicação que me deu foi a de que o sotaque soava francês. Sem fechar a matraca, ele indignava-se com a desorganização dos austríacos, com a falta de respeito pela ordem, que queria imigrar para o Canadá, que em Singapura as ruas são tão limpas que se pode tacar um queijo no chão e comê-lo a seguir. No mesmo instante imaginei duas cenas: ele, oficial da SS, me vigiando num campo de prisioneiros da Resistência (Francesa, óbvio); a outra, a carnificina que faria se arremessado na Uruguaiana ou no Mercadão de Madureira.
A Áustria, um país desorganizado! De fato, há algo aqui de tosco em Viena que não encontrei na Alemanha e que, a propósito, rememorou a Pátria: as lojas, em vez de anúncios discretos, muitas vezes exibem logos que encobrem enormes partes da fachada; também em comparação com a capital alemã, a cidade é totalmente desarborizada. Quando, porém, se fala em estética, Berlim leva uma coça feia. Viena tem todas as gastações arquitetônicas da Art Nouveau salpicada com as lembranças do Barroco, toda essa exuberância tipicamente católica. Entrando na Catedral de Santo Estevão, ficou-me claro que todas as salafraricies e roubalheiras justificavam-se!
Apesar da lindura, Viena decepcionou-me no quesito musical. Esperava ouvir meu amado Schubert, Haydn, o esporrento Mahler, Strauss ou mesmo o mela-cueca do Mozart, mas com que me brindam na birosca do albergue? Não, não foi outro repeteco de “Chorando se foi...”, embora tenha lamentavelmente descoberto ser essa uma canção muito conhecida por estas bandas. O que feriu meus tímpanos foi Ragatanga e logo depois a Macarena. Itálico
Definitivamente a Europa está ficando escrota!




Interpretação da figura: a fúria na face do musculoso homem que se digladia em desespero contra um dragão tricéfalo provém do iminente perigo de ter seu precioso saco mordido pela besta sádica.

Puxadinho no Parlamento Austríaco.


É impressão minha ou há mesmo um Gol 1000 estacionado em primeiro plano? Vi já um fusca!

Esse prédio, tenho quase certeza, foi projetado por Loos naquilo que é o começo da cagalhança da arquitetura moderna.


Tentativa mal-sucedida de auto-retrato. (O original não é muito melhor do que isso no fim das contas...)

3 comentários:

Débora disse...

Não sei se a culpa é do fotógrafo (aproveitando sua auto-crítica e meu senso crítico), mas a aparência de Berlim nas fotos me deixaram decepcionada... Viena sim - certamente ajudada por esta tentativa de céu azul ao fundo - parece ter charme. De perto esta paisagem deve fazer mais sentido. Diante desta austeridade ariana, a mim, que cá estou e continuo provinciana, mais agrada a singela e mestiça arquitetura colonial das Minas Gerais (parcialmente afogada neste momento).
Débora.

Ivan disse...

Pelo seu relato, só posso concluir que as Ragatangas, Macarenas e Lambadas que você escuta ao longo da sua peregrinação são na verdade peças da tão aguardada Terceira Escola de Viena.
Fascinante presenciar tal acontecimento em primeira mão no seu blog.

Thiago Reder disse...

Que iniciativa é essa de passar o natal em uma boate, carola amigo Fgueiró!? Coisa menos cristã!

Não fosse a estada em Viena e seus, no mínimo, 500 Km de raio com IDH > 0.850, mandaria o caso pro Tribunal do Santo Ofício.