sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ich bin Brasilianer und gebe nie auf!
E. T. A. Hoffmann
Berlim

Cada vez mais sinto-me em casa aqui na Alemanha. E não falo apenas do clima: após alguns dias acha-se normal tocar o dia todo em temperaturas de 3 a -1 ºC e confesso que não foi sem a alegria de quem passará um final de semana ensolarado na Região dos Lagos que vi a previsão de temperatura máxima anunciar 7 ºC para este domingo. Embora tenha proferido muitos cagalhões, mais uma vez temos de dar razão ao velho e difamado Gilberto Freire: viver no frio é mole; brábis foi colonizar o trópico. Quem agüenta pegar na enxada sob um Sol de comercial de Skol? O alemão? O inglês?
Mas para mim, que nunca fui friorento, o clima aqui não é problema. (Espaço para a incredulidade materna.) A adaptação foi rápida e os problemas que relatei em escatológica postagem já desvaneceram. O que acalentou em meu peito lembranças da terra onde canta o sabíá foi a seguinte imagem, com a qual ontem me deparei mal chegado ao Instituto:

Em português, frase conhecida de todos aqueles que estudaram em escolas ou universidades públicas: "Estamos em greve". Coisa pouca porém. Em matéria de greve, eles aqui são muito primitivos: confundem conceitos separados feito água e azeite como greve e paralização e acham que perder uma semana de aula é catástrofe bíblica. O que tivemos efetivamente foi mera suspensão das aulas por apenas três horas, uma das quais comida no nosso turno. Como atividade tapa-buraco, nossa profesora, Frau Görtz, solicitou que inqueríssimos os grevistas acerca de seus motivos e reivindicações.
Outra vez detectei que há mais semelhanças do que diferenças a unir a Humanidade! Um dos grevistas usou e abusou de clichês que se vomitam nas nossas assembléias democráticas e soberanas: que o sindicato luta contra a piora das condições de trabalho; que não havia ali nenhum stalinista e que, portanto, não impediriam os colegas de trabalhar, embora estes, quando o aumento por acaso saí, não rejeitem o dindim; enfim que na Alemanha se fazia menos greve do que nos países capitalistas (!) como os Estados Unidos e a Inglaterra e que se tratava dum direito legítimo etc. etc.
Os alemães têm outro ponto de contato comigo: fazem de tudo para transformar o simples em complicado. Em qualquer língua decente, o Sindicato para Educação e Ciência chamar-se-ia algo não muito diferente da nossa doce língua (quando falada com sotaque carioca): em inglês, sei lá, Trade Union of the Workers in Education and Science; em francês, Syndicate pour l'Éducation et Science; em italiano, Sindacato dell'Educazione e Scienza; ou qualquer bagulho próximo dessas traduções para todas elas. A língua alemã, todavia, tem de fazer sua firulinha. Nela tal sindicato precisa se chamar Gewerkschaft Erziehung und Wissenschaft...
Na quarta, fomos ao famoso Altes Museum, onde está o mais do que manjado busto de Nefertiti, clicado fora de foco pelas minhas lentes estrábicas.
Hoje pela manhã, visitamos o Reichstag, que eu, sem sucesso, tentei incendiar pela segunda vez, mas lamentavelmente retiveram minha bomba logo à entrada. O interior do prédio pode ser descrito com uma simples equiparação -- é igual a um xópim.
À noite, decerto cenas que muitos de vocês gostariam de haver visto. Se para alguns talvez minha sabença no andar de bicicleta já seja estarrecedora, saibam que hoje fui andar de patins sobre o gelo. Os primeiros instantes forma de puro pânico e, pela primeira vez na vida, tive uma lembrança da dificuldade que foi dar o meu primeiro passinho quando bebê. Tal qual Tadeu na célebre viagem de Santa Catarina, tive de ser carregado pelo rinque de patinação para fingir que fazia algo ali. Mas depois de dois tombos de comercial de Gelol, adestrei essas pentelhas Leis de Newton e, a meio quilômetro por hora, lá ia deslizando sereno e gracioso, de quando em quando, lançando uma pirueta involuntária. Afinal sou brasileiro e não desisto nunca!
Graças aos céus creio que não há registros dessa aventura glacial e, acaso topem no You Tube com algum "Brasileiro no Gelo", peço vênia de evitar o vídeo!

Apesar desse letreiro em neon vermelho à la puteiro, a foto mostra o Altes Museum.

Trabalho de casa para os alunos do Ciro Cardoso. (Minha tradução abalizada do trecho inicial: os homens montanha meia-lua passarinho, duas salsichas brochas, estrela, colheita na montanha, igreja, diapasão.)
Se te afastares trinta metros do monitor, a imagem entra em foco e aparece uma figura 3-D (Magali ou Mônica).

Malidtos turistas estragando minhas fotos!


Paroarice tecnoecofuturista no plenário do Reichstag: a cúpula de Sir Norman Foster.
Berlim e seu edênico clima.

8 comentários:

Liv disse...

com 7 graus voce até poderá sair na rua com seu clássico modelito bermuda (verde ou preta)\camiseta (preta ou verde)\meia-no-meio-da-canela\tenis-com-a-língua-torta.

O_Artista disse...

Tenho lido seu blog, mas naum havia ainda postado nada até agora...

O que eu quero dizer eh:

Hum, Legal!

Valeu um abração meu caro e divirta-se por aih.

Ana Luiza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Luiza disse...

Adorei a segunda tentativa de incendiar o Reichstag.

Ósculos :)

P.S. é a Ana Luiza da UFF, ou melhor, irmã da Bia

Aline disse...

Nós sabemos que vc é super inteligente e que se sobressai em várias áreas das ciências humanas. Porém, desculpe dizer, suas interpretações e traduções são medíocres comparadas as minhas. Pensei que tivesse percebido isso em Minas e desistido de tal atividade. Sua tradução é pífia. Na verdade, trata-se de um protesto de egípcios vegetarianos contra o consumo excessivo de aves. As várias representações das penosas estão circundadas por símbolos que lembram bocas abertas e, se reparar bem, na linha que fica acima da cabeça do homem representado, no lado direto do observador, há uma ave perseguida por dois talheres em forma de pinça, mostrando a forma brutal com a qual tais criaturas são dilaceradas. O homem representado (adepto ao Vegan e militante do PETA) olha de lado, evidenciando o asco que sente diante desta desprezível situação. O coitado até segura uma bengala para não desmaiar. Observe e aprenda... Posso até ver o orgulho do meu orientador ao ler isso!

Aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline disse...

Ahhh...depois de dar brilhante explicação, quase esqueço. Como ousa ver imagens de Maurício de Sousa na rainha Nefertiti? Mesmo sendo discípula de Hatshepsut não posso deixar que esta atrocidade ocorra... Que a ira de Aton recaia sobre vc e faça com que a batalha intestinal vivenciada no primeiro dia ressuscite como Osíris! Tenho dito!

Figueiró disse...

Hahaha! Tento de confessar, Aline, que você é a maior especialista no ramo da iconografia que a Humanidade já conheceu desde Steve Wonder!
Sua tradução desbancou por completo meu esforço de penetrar (!) nos recessos mais escuros da vida egípcia (!!!). Mas a ciência é assim: avança a passos lentos. Meu contributo não poderá, porém, jamais ser esquecido.