segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Jerusalém Reconquistada

Rio de Janeiro

O sonho acabou! E mais trágico que o fim dos Beatles, porque destes ao menos sobraram as canções, que eram o que importava, enquanto a mim da Europa só restam fotos e dívidas... E a despeito dos perrengues colossais na reta final, quando, conforme previsto, conheci o frio, a fome e a solidão, sinto saudades dos tempos felizes em Berlim, onde vivia como um rei: Frederico II com gastos de morador de Costa Barros. Minha casinha em Tempelhof; o teto baixo no sótão onde sempre metia os cornos; o metrô tosquinho; o Hackescher Market e seus tijolinhos; o restaurante vietnamita; as caminhadas pela Unter den Linden; o imóvel Spree; os museus; os kebabs que me mantiveram vivo...
Os meus últimos momentos de Europa foram desesperadores. Na véspera do reveiom, dormi na Centrale em Milão e às 07:05 voltava a Munique, onde cheguei perto das 16:00. Praticamente sem dinheiro algum, tive de recorrer à mais eficiente e sólida instituição financeira de todas: o Banco Pai e Mãe Ltda. Havia pedido em Veneza e depois em Gênova, em pleno desespero, que me depositassem tanto dinheiro na conta do Banco do Brasil quanto me enviassem um tutu via Western Union. O magnífico Santander, apesar das promessas do auto-atendimento, não havia liberado meu cartão para saques internacionais e eu, tal qual a expedição de Scott ao Pólo Sul,. tão perto da abundância, dispondo de mais de dois mil merréis, estava, entretanto, à beira da aniquilação. Assim que recebi o imêiol da Sra. Minha Mãe, a espinha gelou-me. O dinheiro enviado só poderia ser sacado das Western Unions italianas - e agora estava falido a poucas horas do reveiom. Tentei de qualquer jeito tirar a grana pela Alemanha, mas não foi possível. Por uma intervenção divina, o caixa eletrônico cuspiu-me alguns euros e, perdulário que sou, com não mais do que cinqüentinha, voltei-me a sentir o rei da cocada preta, o bilionário.
Entrei em 2009 já com o pé esquerdo: bem cedinho, sob o tolo conselho da mãe, voltei à Itália para recolher o depósito, tendo uma agência a um cuspe do albergue. Depois de cortar os Alpes pela terceira vez, desci em Bolzano, onde tudo estava fechado; com o coração na garganta e vinte e cinco euros, jogo todas minhas fichas em Verona. A mesma triste visão da outra cidade: o guichê soturnamente fechado. Houve um dilema decisivo: ou permanecia em Verona (na estação naturalmente!), esperava o dia seguinte, voltava a nadar em dinheiro, mas perdia fatalmente meu vôo para casa no dia 3; ou corria logo para o trem de volta a Munique e daí a Paris e daí a Madri e enfim chegava em cima da bucha no aeroporto. Tomei a segunda decisão e implorei para que me transferissem o cascalho para a França e dessem uma fortalecida na minha subnutrida conta corrente.
(Na volta da Itália enquanto relia A Maravilhosa História de Peter Schlemihl, que vendera sua sombra para o Diabo, lastimava a inexistência no mundo real dessa vantajosa linha de crédito!)
Perto das 23:00, pegava o trem noturno para a Cidade Luz, cansado, falido e com fome. Tão deplorável era meu estado que fiquei goderando a garrafa d'água das duas australianas e da simpática francesinha que fedia a cebola que dividiam a cabine comigo. Ao revés das recomendações coladas na parede, para matar a sede fui beber água da bica do banheiro do vagão.
Desembarquei em Paris em grande estilo: cinco euros e alguns centavos. E o mendigo vem-me na Gare d'Est pedir-me esmolas sem compreender que estava em maiores apuros do que ele! A conclusão dessa dramalhão financeiro é que, por zicas no CPF materno (tsc, tsc...), a grana não pode ser transferida para a França, e tive de livrar meu rabo com o que me fora depositado.
Paris conheci em pânico, a correr as ruas carregando a bolsa estropiada e a segurar as calças que me caíam. A impressão que me deixou foi de certa monotonia: aquela repetição interminável de apartamentos haussmannianos, todos entre o creme pálido e o cinza tímido. Alguém afirmara-me que se tratava da cidade mais verde da Europa, mas a mim me pareceu tão desarborizada quanto o Atacama ou ainda os subúrbios da Leopoldina. O metrô - país latino não dispensa a burocracia - tinha filas para a compra de bilhete que são desconhecidos até aqui em Pindorama.
Depois das minhas incipientes tentativas de lançar um italiano autodidático em Veneza, na França julguei mais prudente regressar ao inglês, cujo domínio, felizmente, fui reconquistando. Aquela história de que se torce o nariz quando se fala o idioma do rival na França é algo balela até porque a coisa que menos há em Paris é francês: decerto é muito mais fácil encontrar alguém que fale alguma das 483 línguas da Tanzânia do que alguém que domine a língua de... afinal qual é o escritor nacional da França?! Bem verdade que um senhor fizesse questão de responder-me em francês (e tive de dar-me por vencido) e a maldita atendente do McDonald's que deve haver fingido não entender uma frase nada complexa e que ela mesma ouve cem vezes por dia como é o pedido dum Big Mac.
Crente que estava tudo certo vou reservar - país latino não dispensa a burocracia - e constato que não há mais poltronas disponíveis e, se quiser uma, que pegue o trem do dia seguinte! Sem outra alternativa, pago setenta (!!!) euros por um leito e vou dormindo para Madri.
Enquanto nos aproximávamos da Cidade Maravilhosa ao cair da noite de sábado, que vergonha não senti ao ver os olhos famintos da grigalhada, lançando-se maravilhados para além das janelinhas estreitas sobre... as favelas da Linha Vermelha! Tive de suplicar à italiana ao meu lado de poupar-se àquela vista que me corava as faces. Além de não sermos nada, nada temos ou destruímos aquilo que tínhamos...
É o fim, meus caros. Agora resta-me ser baleado na escola municipal ou tocar meu futuro medíocre pelos subúrbios cariocas...
Aprontei muita confusão pela Europa e passei poucas e boas com aquela turminha (tirei isso dos anúncios de filmes da Sessão da Tarde). Por falar em turminha, cabe aqui apresentar uma foto dos colegas de turma, o "liebe Leute". Á primeira vista pode ressumbrar tela de seleção de personagem do Street Fighter, mas não é, até porque geral está com cara de drogadaço nesta foto.
Da esquerda para direita: Elena (Volgogrado, mais conhecida como Stalingrado, Rússia), o nojento ser que todos conhecem, Ulrikke (Oslo, Noruega), Henry (Joanesburgo, África do Sul), Sharon (Cidade da Guatemala, mas no momento vivendo em Londres e a ponto de se mudar para Berlim - menina internacional, uai!), o careca David (Brighton, Inglaterra), a figuraça Prof.ª Felicitas Görtz (nascida na Bavária, mas com raízes na Prússia Oriental, Estado antecessor da Antiga Neo-Prússia), Emre sentado pagando de gostosão (Istambul, Turquia), André (Salvador), Rita (Rio de Janeiro), Jean (Fortaleza), Miya, que chegou de pára-quedas nos últimos dias (Kyoto, Japão), Juliana (Košice, aquele país que todo mundo confunde com a Eslovênia, ah sim!, a Eslováquia) e Martine (Estrasburgo, França); falta aí Scott (Los Angeles, EUA). Bonde dos brazucas domina! O povo aqui nem sabe falar português e quer se meter com o alemão!

O renomado psiquiatra Álvaro Figueiró, de Genebra, discursa sobre os modernos tratamentos contra a obsessão de consultar imêiols, tendo ao lado o advogado especializado em separações, Dr. Emre, e o moderador do debate, Dr. Jean: "Quando eu era um jovem psiquiatra, tinha uma piedosa crença na lobotomia, mas hoje sou partidário do eletrochoque. E no fim das contas não há novidade alguma na compulsão em escrever imêiols, já que toda a Humanidade é doente. No passado era a mania de cartas e datilografia."

Se essa foto alpina te passa a impressão de frio, dê um confere na de abaixo.

Parece um tênis Montreal modelo 1978, daqueles cujas placas publicitárias sempre pintam num Ponte Preta X Guarani do "Gol, o Grande Momento", mas em verdade trata-se dum medíocre trem espanhol parado na estação de Chamartín.
E agora Paris a toque de caixa, sem torre Eiffel, sem Arco do Triunfo, sem Champs-Élysées, sem Notre Dame, sem Sacré-Cœur, sem Tulherias, sem sequer franceses!


A prova de que o teletransporte já foi inventado: um prédio de Copacabana implantado no meio de Paris.



FINIS LAUS DEO.


MMVIII-MMIX


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Onde Está Carmen Sandiego?

Milão

Jesus, Maria, José! Não voltarei nunca mais à Itália! Além de ser tão desorganizado quanto o Brasil, este maldito lugar arruinou meu reiveiom e minhas finanças. Depois de descobrir que suprimiram os trens venezianos para Nice, vim para Milão na vã expectativa de finalmente conseguir vazar desta nojenta bota. No guichê das reservas, onde uma fila-sucuri serpenteava, foi-me informado que seria melhor ir para Gênova e de lá, aí sim, tomar o trem para a França. Mal chegado à pátria de Colombo (como um monumento do tamanho dum bonde faz questão de anunciar logo à porta da estação Piazza Principe), eis que descubro que os ferroviários estão em greve no além-Pó.
Puta que la merda!
Pergunto se há previsão para o término e dizem-me que ela já dura cerca de vinte dias! Caraças! Por que esses cornínidas não me avisaram logo de cara em Veneza que não há mais trem para Nice? Volto para Milão (reparem só, tudo num único dia: Veneza–Milão–Gênova–Milão) e decido passar uma noite como mendigo, dormir aqui mesmo na sala de espera e tomar o trem noturno damanhã para Barcelona e comemorar alegremente o ano novo chacoalhando numa via férrea. Vou fazer a reserva e, surpresa!, não há mais lugares. Tento Paris, idem. Só me restou voltar para Munique, romper a cidra Cereser, beber o internacionalmente renomado vinho seco Pol (sic!) Lorraine (o favorito da mamãe...) e daí partir para a capital dos esnobes e então a capital dos deportadores de brasileiros. Agora a situação é crítica: tenho vinte e três euros no bolso – mais uns cento e poucos florins, o que não dá um merrel –, quatro dias para meu vôo de regresso e muitos quilômetros pela frente...
(Só me falta agora o pombo que me voa sobre a cabeça cagar em mim.)
E tudo “por causa de quê”? Por ter cogitado a Itália como o caminho mais lógico rumo ao Sul, rumo a Barcelona, rumo a Madri enfim. Mas, idiota que sou, adstringi-me apenas aos banais arrazoadas da geometria euclidiana sem considerar o elementaríssimo fator avacalhação em tudo o que diz respeito à península! Para vocês não julgarem o meu estresse sem fundamento (afinal só na Argentina há mais puxa-sacos da Itália do que no Brasil...), consideram a foto abaixo:

A informação “ritardo” só encontrei por estas bandas. O fato de que ela precisa aparecer do lado do horário de partida já assinala bem o desgosto pela pontualidade.
(Entrementes, como se lesse meus pensamentos, o engravatado à frente, com um rosto entre galã, padeiro da esquina e Truffaut, tendo ao lado uma caixa com vinho, fita-me com ares de reprovação....)
Se o trem não atrasar mais de quinze horas, amanhã pela tarde desembarcarei na Bavária como um filho que passou anos a peregrinar por desertos e volve à casa.

Minha suntuosa morada por uma noite, embora carente de aquecimento central. A estação é bonita pra burro, mas por todo o canto se sente o cheirinho do fascismo (aliás os próprios fasces estão em mosaicos pelo chão e tudo quer relembrar o Império Romano.)

Veneza Precisa dum Favela-Bairro

Nalgum ponto entre Veneza e Milão

O cachorro da última postagem foi protagonista dum pequeno incidente. Na fronteira com a Croácia, a polícia, antipática ao extremo, foi vasculhar o vagão e, aparentemente, o pastor alemão deu um avanço em cima do pequenino cocker. O bicho ficou a ganir e, mesmo um crápula como eu, compadeci-me do sofrimento do animalzinho enquanto os demais passageiros cagavam e andavam. A dona disse que não estava ferido e só sofrera um trauma! O problema é que o cão com desvios psicológicos doravante começou a latir, em plena madrugada, no meio do vagão, o tipo de soporífero que se espera numa viagem – em poltrona – de quase quatorze horas.
Na outra zica européia da qual fui partícipe, também ninguém moveu uma palha. No metrô de Berlim, dois brasileiros, nossa norueguesa e eu assistimos uma mãe australiana sem noção deixar seus dois moleques partirem na composição sem ela. O mais velho abriu o berreiro e todo mundo fazia cara de bunda suja. Descemos na estação seguinte com os putos, enquanto me desesperava de notar um dos sem vergonhas se aproximando da beira da plataforma e antever sua morte e minha conseqüente prisão na Alemanha e difamação como torturador de crianças indefesas!
A única cidade que me estressou nesta viagem foi Veneza. Minha idéia era, assim que chegasse às 07:15, deixar a bagagem na estação, dar uma volta e pegar o trem noturno para Nice. A eslovena com quem conversava no trem garantiu que nada parte no horário certo e deveras a coisa que o locutor da estação de Santa Lucia mais anunciava era:
- Noi informiamo che il treno da Ferrara (ou qualquer outra cidade) arriverà con cinquanta minuti di ritardo. Ci scusiamo.
Quando bisoei a tabela de horários, cadê meu trem noturno?! Simplesmente eliminaram o pobre coitado e eu tive a péssima, péssima idéia de pernoitar na cidade dos canais. Fui ao guichê de informações turísticas, onde me deram um guia hoteleiro e um mapa, ambos sem qualquer indicação dos nomes das ruas.
- Você procura o albergue aqui em Cannareggio, San Paolo ou Santa Lucia – e ela circulava os bairros sem maiores esclarecimentos.
De qualquer forma, essa supérflua informação não faria qualquer diferença: a cidade é um labirinto. Bistegas, pontes, passagens estreitas, prédios mal-alinhados, sinalização precária devem fazer a diversão das crianças, mas a mim emputeceram. (Há uma palavra bem vulgar que sintetiza exatamente o que são ruas estreitíssimas, mas o pudor impede-me de escrevê-la no blogue; o leitor cortês e pervertido venha por obséquio perguntar-ma.) Em vez de os cornos porem placas, como em qualquer outra cidade do mundo, nomes de ruas e números são pintadas nas paredes, sendo que a última vez que as fachadas viram tinta foi no tempo dos doges. O sistema de numeração também não possui lógica alguma e, mesmo depois de ajudado por uma velhinha a encontrar o 2927, quando feliz fui vendo o 2924, 2925, 2926, o número pulou para o três mil quinhentos e cacetada! A estreiteza das ruas faz a Rua das Marrecas parecer um bulevar. A auto-intitulada Calle Larga, não pude deixar de rir, deveria ter uns três, quatro metros de largura. Quando a polícia carioca fala da vantagem tática dos traficantes que conhecem o terreno, o mesmo aplica-se a Veneza – só os venezianos conseguem se locomover com folga. E o símile não pára aí. Trata-se com toda justeza dum favelão: as ruas serem tortas, sem arborização alguma, a arquitetura feiosa, a simetria uma revelação da geometria por fazer-se, vai lá; é uma questão de conservação das suas características antigas; agora, o reboco todo baleado, tijolos à mostra, uma gambiarra de fios a grimpar pelas fachadas, portas pichadas, canos voadores, ruas imundas com cocô canino (assim espero), isso pra mim é favela. Aliás, em toda a Europa, onde se vê mais tchotchoros do que crianças, o único lugar em que um cão veio perseguir-me e latir nas minhas pernas foi em Veneza! E estamos – lembremos – no Norte da Itália, a parte superdesenvolvida e civilizada que se quer separar daquele lixão sulista!
Mencionarei um elemento importantíssimo para afugentar de vez o turista, ou melhor, o durista, que é a categoria na qual me enquadro: o preço astronômico de tudo. O albergue em que fiquei – quarto privativo e café da manhã incluído, confesso – custou-me cinqüenta (repito, cinqüenta!) euros; um fiapo de espaguete, cinco contos; internete, quinze minutos, dois e cinqüenta. Os cidadãos que vão para lá, concluí, são os mesmos que alegremente pagam para flanar pela Rocinha!
Sei que a cidade deixou-me tão mal humorado que, pela primeira vez em toda a viagem, preferi passar a tarde dormindo a ir passear. Não fui ver de dia nada de manjado: Praça de São Marcos, Ca’ d’Oro, navegar de gôndola (o que deve custar uma fortuna).
Berlim é feia mas ajeitada; Veneza, no entanto, é feia e não escova os dentes. À noite, até que se tornou passável, porque o escuro sempre camufla a feiúra, razão pela qual todas as boates são pouco iluminadas... Ainda assim não me aventurei muito com justo receio de perder-me. Na calada da noite, Veneza é “apavorizante”: a entrada do prédio onde estava saiu d’O Barril de Amontillado. E o clichê de que ela é romântica, os pombinhos a singrar suave embalados por uma ária, constitui a prova irrefragável de que o amor é cego.
Há apenas um ponto positivo – o clima; o frio daqui é bundalelê total. Depois dos perrengues em Berlim e imediações, senti-me no verão. (O maior frio por que passei na vida continua, porém, sendo o daquela mal-sinada excursão a Vassouras.)
A Itália e eu somos tão vocacionados a detestar um ao outro. Depois de encontrar três caixas eletrônicos defeituosos, meu cartão foi enjeitado pela maquineta e, além de mal-humorado, perdido e cansado, fiquei dureba e tive impulsos de afogar-me no Adriático.
A melhor coisa que faço é ralar peito o mais rápido possível dessa nação caótica. O olor das ruas entre o amaciante de roupa e a creolina.não me deixará saudade; depois dessa bola-fora, só volto sendo pago!
Ah! Se tivesse ido para Ljubljana, evitaria tais dores-de-cabeça. O leitor deve perguntar-se o que há de interessante lá e titubeio entre duas respostas: a) nada; b) ruas bem sinalizadas.
A Eslovênia perdeu afinal a oportunidade de seus quinze minutos de fama ao não participar das guerras que sucederam a secessão da Iugoslávia e impedir que criancinhas mutiladas e velhos estropiados aparecessem diante das câmeras! Um bósnio em Berlim, conversando comigo e com uma argentina, fez menção de que a única coisa que se conhece da sua terra pelo mundo afora é sobre a guerra. Mas, acrescento eu agora, a Bósnia, bem ou mal, ainda é lembrada e não poucos saberão indicar que a capital se chama Sarajevo, ao passo que a pequetita Eslovênia é sempre confundida com a Eslováquia e Ljubljana permanece tão obscura quanto Varre-e-Sai.
Meu reiveiom mambembe... Originalmente queria Praga, mas dificuldades logísticas (a volta para Madri) foram abortando a idéia; agora, graças aos húngaros e italianos, luto para chegar a Barcelona a tempo.
Veneza, Veneza... Que afunde Veneza!



Duas marcas do Ocidente: lixo e informação.



"Cão, tu que és inteligente, ensina ao teu acompanhante ignorante a recolher os cocôs!” Dante, A Divina Comédia, Inferno, Veneza.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Em que Quase Apareço na Tevê Húngara

Nalgum ponto entre Budapeste e Veneza
(mais pras bandas de Budapeste)

O livreto de horários dos trens jurava que o trem para Ljubljana partia às 12:50 da estação de Déli no lado ocidental da capital húngara. Após correr feito um louco – o restaurante em que comia demorou para trazer-me o prato... – e, mais impressionante, orientar-me pelas placas no idioma local, cheguei a tal da Déli pályaudvar para constatar que o trem já havia ralado peito. Boladaço fui perguntar a um fuão onde raios poderia estar a máquina que me levaria à Eslovênia. Muito simpática e solicitamente, ele foi informar-se mais minudentemente no seu torpe idioma e fiquei sabendo – tchantchã! – que, durante esta semana, decidiram adiantar a partida para meio-dia. Não me restou senão pegar novamente o metrô e desembarcar na estação em que chegara no dia 26, a Keleti, que mais parece uma igreja, e tentar o trem noturno para Veneza. Como houvesse necessidade de reserva, fui à cata dum guichê onde me orientasse. O diálogo ia bem, apesar das minhas desconfianças: o caboclo insistia que não era necessária a reserva e eu perguntava o porquê de ela estar indicada no livreto. Até aí era apenas um diálogo de surdos, mas acabamos entrando numa discussão de política internacional. O trem passava pela Croácia e Eslovênia e o homem que deveria esclarecer-me sobre a reserva começou a perorar sobre o acordo de Schengen, sobre a nação croata ser a ovelha negra da Europa, que eu deveria estar feliz de viver num país próspero como o Brasil, que diferenças sociais havia em todos os lugares e que a História era a mesma há dois mil e cacetada anos (o único ponto com que concordei). Naturalmente a reserva era obrigatória e tratei de fazê-la diretamente no guichê de venda de passagens.
Os húngaros revelaram-se mais simpáticos na sua maioria do que esperava, porém uma minoria não desprezível se assemelha a um cruzamento de argentino com paulistano. A atendente do superbar Szimpla, carrancuda e dando porrada nas garrafas, só faltou responder ao meu pedido com um murro nos cornos e arrematar:
- Tu não tem que pedir porra nenhuma aqui, não, seu bosta!
Todavia talvez fosse nada pessoal, porque ela atendia as donzelas sempre mais amigavelmente...
No supermercado perto do albergue, onde uma virago de cabelos grisalhos cacheados patrulhava no caixa, fomos seguidos por um dos atendentes ao vaguear por entre os corredores, decerto para impedir-nos de eventualmente furtar algo. E não bastasse isso, o teto, à la motel, era espelhado para que nada escapasse do panótico da Generala Caixa!
Lá na estação fiquei abandonado, cachorro sem dono, trapo velho, mofando pelo trem, já que o grupo de brasileiros se desfez e cada um foi buscar seu destino (oh!). Ao passar diante duma câmera e uma repórter, ouço uma engrolada no cangote. Viro e deparo-me com uma morena alta e bonitona que prosseguiu a vomitar cacos de fonemas. Saindo da letargia, tive de decepcioná-la:
- Sorry, I’m brazilian – frase relativamente antipatriótica, ainda mais pelo tom de pranto com que a proferi.
- Oh, so you don’t speak hungarian! – lamentou a jornalista a minha pouca proficiência no idioma.
Se tivesse aprendido húngaro antes de vir para cá, poderia ter até pintado na tevê local dando entrevista! Não sei do que se trataria a matéria, mas para ela julgar-me adequado, estou certo de que deveria se algo em torno dos mendigos que habitam a estação ou a juventude drogada no Leste Europeu (sem ver tesoura há mais de dois meses e pente desdo Brasil, meu cabelo está o dum poeta romântico).
Ai! As quase quatro horas que passei em Keleti com os auto-falantes a murmurar os avisos incompreensíveis numa acústica digna de Central do Brasil! E o pior é que eles vinham precedidos por dois sinais sonoros: um igual a uma minigueime ou toque de celular paroara; o outro, um crescendo de teclado em oitavas.
O tempo restante tratei de torrar os florins – dinheirinho Mabel – que teimavam em sobreviver, já que, para mim, a partir das 16:35 de hoje, essa moeda e papel higiênico se transmutaram na mesma coisa.
No trem, em poucas horas de viagem, já soltaram duas bufas siderais, aliás, o que já percebi, um mau hábito europeu: flatular nos transportes públicos hermeticamente fechados. Em Berlim, cometeram até o sacrilégio de peidar na sala dedicada a Nefertiti! Quem mais sofre nessa é o ser com o olfato mais atilado no vagão depois de mim: o pobre cocker spaniel caramelo que jaz deitadinho com orelhas murchas no chão.

sábado, 27 de dezembro de 2008

À Procura de Kayser Söze
(ou pela volta da Áustria-Hungria)

Budapeste

Ontem desembarquei em Budapeste e, mal pus a pata para fora do trem, já senti o cheiro de Leste Europeu. Aqui quando as coisas têm cores, ainda assim são tons dos anos 70. O meu comboio, por exemplo, estava pintado dum azul que deve ter vindo pela última vez ao mundo na capa dalgum disco do Fletwood Mac ou do Erasmo Carlos, livro do Sidney Sheldon ou ainda num terno-gaivota. “Ingual que nem” a imagem mental que na infância tinha das terras para além da Cortina de Ferro, o cinza é rei. O prédio onde catamos (desde Viena estou acompanhado por dois compatriotas – até amanhã...) o primeiro albergue parecia um memorial da Segunda Guerra ou, antes, uma gruta. Claro que para alguém tão vocacionado para ser mendigo como eu não me incomodei minimamente com as condições sub-humanas da arquitetura do local, mas o importante é que nossa reserva não estava feita e fomos fuçar noutro lugar.

Por falar em mendigaria, meu sapato está kaputt como se constata na foto abaixo.



Para isso tratei de sacar, nos meus tempos felizes em Berlim, um neologismo: Kiemeschuh, sapato-brânquia.
Ao subir a escada do prédio onde se localiza o segundo albergue, a impressão não foi melhor. Aqui a tradição de contratar espeleologistas em vez de arquitetos para riscar o prédio parece que se manteve, com os singelos ornamentos duma coluna/cano de PVC e duma infiltração manacial do Amazonas.


A recepcionista do albergue, ao contrário de quase todos os húngaros carrancudos, é extremamente simpática, dessa simpatia que começa a comichar-me receios – os simpáticos, afinal, sempre me apavoram porque acho que vão acabar-me pedindo algo. Mas só depois desconfiei que a cordialidade poderia ser um mero ardil para a antropofagia; só depois compreendi que a pálinka, aguardente de ameixa, e o bombom de coco e marzapã que nos foram oferecidos tinham o fito de anestesiar-nos antes da retirada sorrateira dos nossos órgãos para o jantar dos donos do albergue!
Continuo vivo apesar dos pesares, talvez sem um fígado ou um rim...
(Não, eu não vi o tal do filme sobre os maníacos do albergue.)
Saído dum mês imerso em pura germanofonia, o resultado presente é que estou falando e escrevendo talvez um português cada vez mais porco; meu inglês, outrora estiloso, foi pro brejo; e meu alemão continua uma caca. Não raro enfio palavras do alemão na frase que se pretendia inglesa ou, mais catastrófico, uso a construção do outro idioma. Assim temos proezas dignas de Joyce como: “I haven’t my ID mitgebracht” ou “I’d like einen Spaghetti with seafood, bitte”.
Do húngaro, naturalmente não conheço uma puta palavra. Para não ser radical, aprendi que kocsma significa – advinhai, advinhai... – “bar” embora eles também empreguem o internacionalismo. O mais sensacional foi a garçonete chegar toda verborrágica para atender-me... em húngaro. Ora, por mais que se trate dum idioma universalmente estudado, tão relevante para as relações internacionais, falado por 10% da população mundial, sou um ignorante latino-americano com sapatos literalmente furados! E o querido amigo bêbado da rua vem conversar comigo na sua língua nativa e, vendo que não lhe compreendia lá muito bem, emprega aqui e acolá umas palavras em alemão para fazer-se melhor entender.
A língua é muito feia e posso justificar de forma inconteste meu julgamento: inúmeras vezes pareceu-me que se falava espanhol! De quando em quando, bem verdade, ouvia algo que se assemelhava ao alemão e outras vezes ao russo, de sorte que o húngaro foi criterioso de escolher o que de mais feio há nos idiomas neolatinos, germânicos e eslavos. Sem sequer pertencer à família indo-européia, o único obstáculo à completa ininteligibilidade do húngaro é o alfabeto, malgrado haja pressões para a adoção dum sistema de escrita próprio, tão indecifrável quando a língua falada. Ainda assim, o alfabeto latino dá trabalhos hercúleos: não satisfeitos em cravarem um acento agudo no ó, os excessivos húngaros acharam por bem adicionar um segundo, de maneira que se tem: o (que eu pronuncio fechado), ó (que pronuncio como o nosso ó aberto) e ő (para mim algo como o André Matos levando um chute no saco durante um falsete).
Ah! O mavioso húngaro! Quando nego na rua o fala, recordo a língua das animações de massinha da TVE!
Ah! E já me esquecia! Cidade de contrastes, ontem no castelo, do outro lado do Danúbio, havia dois violinistas: um executava com maestria Corelli; o outro... o tema dos Flintstones! E na Andrassy útca, a rua aparentemente chiquê, passou um carro explodindo novamente a Ragatanga! Para completar o vazio do dia, por alguma razão inexplicável, a cidade estava absolutamente deserta, sequer o Burger King, que, como sabeis, vende comida típica húngara, estava aberto!
A capital magiar, mesmo com toda a poluição sonora (a começar, repito, pela língua), é jeitosa, mas seu ar claramente decadente, suas paredes pichadas, algumas praças sujismundas, calçadas tortas, acenam alegremente para o turista “Bem vindo ao Leste! Somos os fufus deste continente!” Ainda assim há coisas belíssimas: que o caridoso leitor constate pelas fotos!


Ah! O colorido Leste Europeu!



Eis o anúncio com que me deparo no mapa turístico de Budapeste: “Gentlemen’s Club. Western owned and managed.” Mais à frente o aviso: “Avoid no logo taxis. Make sure that the taxi driver takes you to the correct address. Some may try taking you to another club.” Ê, estamos no Brasil!

Canaletto em Budapeste?

Estamos importando ou exportando lixeiras?!

Lembrando 1956....





A única coisa que entendi na Hungria. Compare com uma simples placa de não sei o quê.


O leitor astuto conseguirá ligar as coisas e imaginar de que tipo de zona se trata...


Promoção-relâmpago do Supermercado Rothschild: na seção de frios, o quilo do presunto sai apenas a 1000 florins; e o sorvete American Ice, alegria da criançada, por 850; o quilo da cereja está uma pechincha em 2000 florins; na seção de crédito internacional, os estadistas poderão tomar emprestado até cem milhões de libras com jurrinhas amigáveis!








Inscrição rupestre deixada na minha cama no albergue de Viena por Zheng Yue Chang. Se ele não escreve o “from China”, jamais teria sabido a proveniência do fuão!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Viena é Duca!

Viena
(a cidade, não o restaurante)

A caminhar ao lado do Danúbio, com as faces laceradas por um vento álgido, senti saudades da minha terra e não pude deixar de lembrar com um suspiro a bela Belford Roxo cortada pelo Sarapuí!...
Passei um Natal que faria a alegria de qualquer papa-hóstia: numa boate. Antes de entrar, conversava com o leão-de-chácara, ex-soldado do exército alemão, diante do qual não me senti, digamos, apequenado ou mesmo um pigmeu, mas sim uma criança com problemas de crescimento confrontada com um jogador de basquete. Mal abri o bocão, o gigante já lançou-me a maldita pergunta de se eu viria da França. A explicação que me deu foi a de que o sotaque soava francês. Sem fechar a matraca, ele indignava-se com a desorganização dos austríacos, com a falta de respeito pela ordem, que queria imigrar para o Canadá, que em Singapura as ruas são tão limpas que se pode tacar um queijo no chão e comê-lo a seguir. No mesmo instante imaginei duas cenas: ele, oficial da SS, me vigiando num campo de prisioneiros da Resistência (Francesa, óbvio); a outra, a carnificina que faria se arremessado na Uruguaiana ou no Mercadão de Madureira.
A Áustria, um país desorganizado! De fato, há algo aqui de tosco em Viena que não encontrei na Alemanha e que, a propósito, rememorou a Pátria: as lojas, em vez de anúncios discretos, muitas vezes exibem logos que encobrem enormes partes da fachada; também em comparação com a capital alemã, a cidade é totalmente desarborizada. Quando, porém, se fala em estética, Berlim leva uma coça feia. Viena tem todas as gastações arquitetônicas da Art Nouveau salpicada com as lembranças do Barroco, toda essa exuberância tipicamente católica. Entrando na Catedral de Santo Estevão, ficou-me claro que todas as salafraricies e roubalheiras justificavam-se!
Apesar da lindura, Viena decepcionou-me no quesito musical. Esperava ouvir meu amado Schubert, Haydn, o esporrento Mahler, Strauss ou mesmo o mela-cueca do Mozart, mas com que me brindam na birosca do albergue? Não, não foi outro repeteco de “Chorando se foi...”, embora tenha lamentavelmente descoberto ser essa uma canção muito conhecida por estas bandas. O que feriu meus tímpanos foi Ragatanga e logo depois a Macarena. Itálico
Definitivamente a Europa está ficando escrota!




Interpretação da figura: a fúria na face do musculoso homem que se digladia em desespero contra um dragão tricéfalo provém do iminente perigo de ter seu precioso saco mordido pela besta sádica.

Puxadinho no Parlamento Austríaco.


É impressão minha ou há mesmo um Gol 1000 estacionado em primeiro plano? Vi já um fusca!

Esse prédio, tenho quase certeza, foi projetado por Loos naquilo que é o começo da cagalhança da arquitetura moderna.


Tentativa mal-sucedida de auto-retrato. (O original não é muito melhor do que isso no fim das contas...)