sábado, 27 de dezembro de 2008

À Procura de Kayser Söze
(ou pela volta da Áustria-Hungria)

Budapeste

Ontem desembarquei em Budapeste e, mal pus a pata para fora do trem, já senti o cheiro de Leste Europeu. Aqui quando as coisas têm cores, ainda assim são tons dos anos 70. O meu comboio, por exemplo, estava pintado dum azul que deve ter vindo pela última vez ao mundo na capa dalgum disco do Fletwood Mac ou do Erasmo Carlos, livro do Sidney Sheldon ou ainda num terno-gaivota. “Ingual que nem” a imagem mental que na infância tinha das terras para além da Cortina de Ferro, o cinza é rei. O prédio onde catamos (desde Viena estou acompanhado por dois compatriotas – até amanhã...) o primeiro albergue parecia um memorial da Segunda Guerra ou, antes, uma gruta. Claro que para alguém tão vocacionado para ser mendigo como eu não me incomodei minimamente com as condições sub-humanas da arquitetura do local, mas o importante é que nossa reserva não estava feita e fomos fuçar noutro lugar.

Por falar em mendigaria, meu sapato está kaputt como se constata na foto abaixo.



Para isso tratei de sacar, nos meus tempos felizes em Berlim, um neologismo: Kiemeschuh, sapato-brânquia.
Ao subir a escada do prédio onde se localiza o segundo albergue, a impressão não foi melhor. Aqui a tradição de contratar espeleologistas em vez de arquitetos para riscar o prédio parece que se manteve, com os singelos ornamentos duma coluna/cano de PVC e duma infiltração manacial do Amazonas.


A recepcionista do albergue, ao contrário de quase todos os húngaros carrancudos, é extremamente simpática, dessa simpatia que começa a comichar-me receios – os simpáticos, afinal, sempre me apavoram porque acho que vão acabar-me pedindo algo. Mas só depois desconfiei que a cordialidade poderia ser um mero ardil para a antropofagia; só depois compreendi que a pálinka, aguardente de ameixa, e o bombom de coco e marzapã que nos foram oferecidos tinham o fito de anestesiar-nos antes da retirada sorrateira dos nossos órgãos para o jantar dos donos do albergue!
Continuo vivo apesar dos pesares, talvez sem um fígado ou um rim...
(Não, eu não vi o tal do filme sobre os maníacos do albergue.)
Saído dum mês imerso em pura germanofonia, o resultado presente é que estou falando e escrevendo talvez um português cada vez mais porco; meu inglês, outrora estiloso, foi pro brejo; e meu alemão continua uma caca. Não raro enfio palavras do alemão na frase que se pretendia inglesa ou, mais catastrófico, uso a construção do outro idioma. Assim temos proezas dignas de Joyce como: “I haven’t my ID mitgebracht” ou “I’d like einen Spaghetti with seafood, bitte”.
Do húngaro, naturalmente não conheço uma puta palavra. Para não ser radical, aprendi que kocsma significa – advinhai, advinhai... – “bar” embora eles também empreguem o internacionalismo. O mais sensacional foi a garçonete chegar toda verborrágica para atender-me... em húngaro. Ora, por mais que se trate dum idioma universalmente estudado, tão relevante para as relações internacionais, falado por 10% da população mundial, sou um ignorante latino-americano com sapatos literalmente furados! E o querido amigo bêbado da rua vem conversar comigo na sua língua nativa e, vendo que não lhe compreendia lá muito bem, emprega aqui e acolá umas palavras em alemão para fazer-se melhor entender.
A língua é muito feia e posso justificar de forma inconteste meu julgamento: inúmeras vezes pareceu-me que se falava espanhol! De quando em quando, bem verdade, ouvia algo que se assemelhava ao alemão e outras vezes ao russo, de sorte que o húngaro foi criterioso de escolher o que de mais feio há nos idiomas neolatinos, germânicos e eslavos. Sem sequer pertencer à família indo-européia, o único obstáculo à completa ininteligibilidade do húngaro é o alfabeto, malgrado haja pressões para a adoção dum sistema de escrita próprio, tão indecifrável quando a língua falada. Ainda assim, o alfabeto latino dá trabalhos hercúleos: não satisfeitos em cravarem um acento agudo no ó, os excessivos húngaros acharam por bem adicionar um segundo, de maneira que se tem: o (que eu pronuncio fechado), ó (que pronuncio como o nosso ó aberto) e ő (para mim algo como o André Matos levando um chute no saco durante um falsete).
Ah! O mavioso húngaro! Quando nego na rua o fala, recordo a língua das animações de massinha da TVE!
Ah! E já me esquecia! Cidade de contrastes, ontem no castelo, do outro lado do Danúbio, havia dois violinistas: um executava com maestria Corelli; o outro... o tema dos Flintstones! E na Andrassy útca, a rua aparentemente chiquê, passou um carro explodindo novamente a Ragatanga! Para completar o vazio do dia, por alguma razão inexplicável, a cidade estava absolutamente deserta, sequer o Burger King, que, como sabeis, vende comida típica húngara, estava aberto!
A capital magiar, mesmo com toda a poluição sonora (a começar, repito, pela língua), é jeitosa, mas seu ar claramente decadente, suas paredes pichadas, algumas praças sujismundas, calçadas tortas, acenam alegremente para o turista “Bem vindo ao Leste! Somos os fufus deste continente!” Ainda assim há coisas belíssimas: que o caridoso leitor constate pelas fotos!


Ah! O colorido Leste Europeu!



Eis o anúncio com que me deparo no mapa turístico de Budapeste: “Gentlemen’s Club. Western owned and managed.” Mais à frente o aviso: “Avoid no logo taxis. Make sure that the taxi driver takes you to the correct address. Some may try taking you to another club.” Ê, estamos no Brasil!

Canaletto em Budapeste?

Estamos importando ou exportando lixeiras?!

Lembrando 1956....





A única coisa que entendi na Hungria. Compare com uma simples placa de não sei o quê.


O leitor astuto conseguirá ligar as coisas e imaginar de que tipo de zona se trata...


Promoção-relâmpago do Supermercado Rothschild: na seção de frios, o quilo do presunto sai apenas a 1000 florins; e o sorvete American Ice, alegria da criançada, por 850; o quilo da cereja está uma pechincha em 2000 florins; na seção de crédito internacional, os estadistas poderão tomar emprestado até cem milhões de libras com jurrinhas amigáveis!








Inscrição rupestre deixada na minha cama no albergue de Viena por Zheng Yue Chang. Se ele não escreve o “from China”, jamais teria sabido a proveniência do fuão!

2 comentários:

Thiago Reder disse...

Pô, justamente neste post, você esqueceu de comentar a velha e histórica frase do professor Gouvêa do CEFET, que "O diabo fala húngaro".

Enfim, bata os sapatos ao sair do Leste Europeu.

Liv disse...

Post realmente divertido.